Cooperativismo Catarinense

ARTIGO Julmir Cecon

Deus, o Apocalipse e o cooperativismo

No livro do Apocalipse, “Deus vomitará os mornos”. A mim, morno é quem faz por fazer, se isenta da responsabilidade maior, é frio, tenta o “possível”, e não o melhor; mente, é omisso, vira um hipócrita de si mesmo sem perceber; resmunga, mas não age.

“Veja aí, eu falei, tem goteira na escola; o governo tem que ver isso urgente!”

, mas não toma as providências imediatas, geralmente resolvidas com baixo custo, de forma simples. O morno complica para se tornar “relevante”. E sempre tem alguém que nele acredita.

É aquele que, no meio do incêndio, larga a mangueira, pois tocou o sinal, e o expediente terminou; é o médico que, no agravamento da cirurgia, chama um substituto para finalizar o serviço, afinal, o plantão acabou. É o advogado que não tem escrúpulo ao se associar ao criminoso. É o jornalista que recebe por fora para produzir fake news.  É o empresário que sonega, para mais uma viagem a uma ilha paradisíaca.  O morno desvia, não enfrenta a verdade de peito ao vento; não chora nem se emociona e crê na falsa benção do silêncio como salvação. Para o morno, tudo é “normal”, e nada a mais pode ser feito, afinal, “aqui as coisas sempre foram assim”.

Imagino que, no time dos mornos, estejam os “politicamente corretos” que azeitam as coisas de um lado e de outro, mas a meta é a autoproteção. O morno é o egoísta, não reparte nem o cabelo. Lembremos que afeto e conhecimento só aumentam se a gente partilha. E que, é quando sobe e desce a onda do mar, quando a realidade sofre um agito, que novo e límpido oxigênio é produzido.

Por falar em repartir, gerir e liderar é ver o coletivo sonhando, debatendo, achando caminhos juntos, se curando dos erros unidos, ganhando e perdendo no campo das ideias, se expondo sem ser humilhado, mantendo o respeito bilateral, podendo olhar seu semelhante no olho com maturidade e sem egocentrismos; é o grupo, com humildade, se provocando positivamente para algo mais sublime. Ou seja, democracia é a ausência da opressão, mas não a falência da ordem, desde que a construção desse ordenamento responsável e sensato conduza ao crescimento de todos, a começar pelos negócios e pelo aparelhamento justo dos sistemas distributivos. Trocando em miúdos, não há espaço para mornos no associativismo, pois tal estrada depende do enfrentamento inteligente, do melhor pacto para o momento.

Gandhi dizia:

“Se todos crerem no ‘olho por olho’, um dia todos ficarão cegos”.

Dessa forma, morrem antes, ainda respirando, os sem essência, os “mais ou menos”, os sem propósitos nem capricho. Morrem caminhando os mornos, pois não ousaram nem para discordar, nem para concordar ou deixaram pífios legados de ética, de entrega verdadeira às causas comunitárias, e cooperativismo é, sim, uma comunidade.

Os mornos não deixam “recordações” (retornar ao coração), pois não se importam (entrar na “porta” do alheio). Como diz a lápide de Mário Quintana:

“Eu não estou aqui”. Estaria onde? Naquilo que o poeta sentiu, expressou e fez.

Encerro com uma pergunta: o que fica de nós, aos outros, se não existíssemos? Se Deus é bondoso ‒ e é ‒, é quando somos solidários que nos tornamos importantes. É esse o “poder” que fica. E que conta. O resto é migalha ao pombo.

Se até Deus exclui os mornos, quem somos nós para discordar?   

Julmir Cecon, escritor, palestrante, assessor de imprensa da Cooperalfa.

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